Catió #1

Catió #1

O Centro de Educação Especial e Terapêutica [ou As várias formas dos Oásis]

Os oásis podem ter várias formas. Podem ser água, abrigo, paz, sorriso ou abraço. Independentemente de como se apresentam, todos têm um ponto em comum: discretizam o espaço, dividindo o contínuo em locais bem definidos. Num curioso paradoxo, um dos factores mais importantes para a definição do oásis é o local onde se encontra. 
A “Na Rota dos Povos” iniciou o funcionamento do seu Centro de Educação Especial e Terapêutica (CEET) em Catió, cidade que fica no sul da Guiné-Bissau. Neste oásis, 40 crianças com diversidade funcional passarão a ter apoio nas vertentes do diagnóstico e tratamento, da educação e da alimentação. Muitas destas crianças tiveram, até ao momento, uma vida muito isolada. Crescer isolado, é colocar-nos de lado. É nascer ponte, mas sem tocar as margens.

A educação é a ferramenta que permite rasgar os terrenos mais áridos e irrigar as zonas adjacentes. Neste processo, o Doutor Rúben Almeida, especialista em reabilitação e a Terapeuta Carolina Mouta tiveram um papel muito importante, partilhando o seu conhecimento à equipa que irá acompanhar as crianças. Tive a honra e a felicidade de ouvir a primeira aula do Doutor Rúben, onde aprendi um grande conjunto de lições. A minha formação como professor, faz-se sempre quando me coloco como aluno. 
O primeiro sorriso de uma criança é um dos principais marcos do seu estado de desenvolvimento, mas conseguir sorrir, não implica que seja possível fazê-lo. Vivemos num mundo em que demasiadas crianças têm poucos motivos para sorrir. Nada é mais importante do que o sorriso das crianças. O CEET pretende fazer sorrir e reforçar que todos os sorrisos são importantes.

 
A capacidade de fixar alguém com o olhar é outro momento muito importante, mas torna-se impossível fixar alguém que não fica. Demasiadas mães morrem durante o parto em todo o mundo, e em especial em Catió, de complicações que poderiam ser evitadas. Infelizmente, conhecemos muito bem estes números. A “Casa da Mamé”, outro dos grandes oásis da “Rota”, acolhe, neste momento,19 crianças que a mãe morreu no parto.

No CEET, os espelhos são essenciais para o trabalho de recuperação porque nos permitem perceber a nossa postura incorrecta. Fiquei a pensar que precisamos de espelhos para as nossas acções, sem nos deixarem esquecer as nossas fragilidades e a beleza que há em todos nós. É essencial facilitar experiências às crianças que, por uma diversidade de motivos, não tiveram a oportunidade de as ter. A terapia não muda o passado, mas muda o futuro, valorizando o único momento em que podemos actuar: o presente.

 
Dentro de cada um de nós também existem oásis. Vivemos procurando momentos marcantes, mas prendemo-nos em momentos mais fáceis de identificar. Normalmente os primeiros, mas os últimos momentos poderão ainda ser mais marcantes. O problema é que raramente sabemos quando ocorrem. Quando será o último abraço a uma pessoa querida, a última vez que visitamos uma cidade ou um amigo?

O grande oásis da nossa vida é o presente e é apenas sobre podemos actuar, mas é essencial lembrar-nos da nossa finitude e que sem a contemplação, nada é belo. Procuremos a beleza que há em todos nós. Na diferença, mas em igualdade.

Música do dia: Sleeping at Last – Saturn

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